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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Amanhã há de ser outro dia - As Palavras do Poeta

#Resenha #MotivoDeReflexão
Amanhã há de ser outro dia...
Há quem veja agora apenas uma onda conservadora avassaladora e o silêncio. Mas há rebeldia por toda parte.
Seremos algum dia capazes de gerir nosso próprio destino ou viveremos eternamente à sombra da CASAGRANDE e obedecendo os ditames da GLOBO?
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Amanha-ha-de-ser-outro-dia/4/36230
Imagem do google
Hoje você é quem manda / Falou, tá falado /Não tem discussão
(...) Apesar de você / Amanhã há de ser /Outro dia
Eu pergunto a você / Onde vai se esconder /Da enorme euforia
Como vai proibir / Quando o galo insistir /Em cantar
Água nova brotando / E a gente se amando / Sem parar
Chico Buarque, Apesar de você

"Logo depois da votação do impeachment de Dilma Roussef na Câmara dos Deputados, cheguei em casa e peguei o único Hemingway da prateleira. Não sou um grande conhecedor de Hemingway, nem mesmo um profundo admirador da sua literatura. Mas foi um ato imediato, impensado. Larguei inacabado o romance do português Lobo Antunes que tinha me acompanhado na viagem, uma história engenhosa de um homem velho entre o delírio e a vida em seus dias finais, e agarrei uma narrativa solar. Mas não era a literatura que eu buscava.
Depois de algum tempo, entendi que eu buscava mesmo era a companhia de Hemingway, como a de um amigo mais velho que talvez me explicasse o que estava acontecendo. A verdade é que nos últimos dias tenho pensado muito na vida de Hemingway que, na verdade, é muito parecida com a maior parte da história dos homens de todos os tempos: um indivíduo que saltou de uma guerra para outra, de um desastre para outro até desembocar em um suicídio, ironicamente repetindo a atitude do pai. Exceção mesmo só foi o sucesso literário e o fato de que, no meio tempo entre tudo isso, até teve a chance de viver em uma Paris que faz inveja a todos nós.
Talvez se possa dizer que Hemingway era exímio em estar ao lado do perigo: afinal, alistou-se na Primeira Guerra e foi voluntário na Guerra Civil Espanhola contra os franquistas. Mas a verdade é que só viveu intensamente os problemas do seu século. Ele não podia, simplesmente, pedir que o mundo não fosse o caos de sempre para que ele pudesse construir uma obra literária, assim como compreendeu, especialmente na Espanha, que é preciso descobrir o lado certo da luta.
Como Hemingway, a verdade é que hoje eu me pego a pensar nas várias pessoas que admiro e devo reconhecer que suas vidas foram cheias de percalços, na maior parte das vezes saltitando entre guerras, prisões e regimes autoritários. Não é por acaso que o gênio Galileu foi o tema de uma das peças mais emblemáticas de Brecht: afinal, não foram poucas as vezes que a ignorância e a força silenciaram um avanço da humanidade. Se não faltaram humilhações e dissabores pessoais, também é verdade que as ideias de Galileu venceram, a exemplo do que aconteceu várias outras vezes. Os gregos, que tanto admiramos, condenaram Sócrates à morte, mas antes lhe ofereceram a chance de renunciar ao que pensava, o que ele não aceitou. Chaplin e boa parte dos mais relevantes artistas radicados nos Estados Unidos durante o século XX foram caçados pelo marcartismo, numa irônica repetição das Bruxas de Salém. Alain Turing, o gênio da matemática e da computação, lutou contra os nazistas em nome da liberdade, mas não teve ele mesmo liberdade: foi perseguido e castrado quimicamente na moderna Inglaterra, poucas décadas atrás, por ser homossexual. Graciliano, talvez o autor mais importante da minha formação literária inicial, foi preso e padeceu todo o tipo de arbitrariedade. Guimarães Rosa teve o desprazer de estar na Alemanha nazista, onde chegou a ser detido depois de ajudar centenas de judeus a imigrar. Alguns dos historiadores franceses mais marcantes do século 20 foram também soldados ou prisioneiros. Mesmo o homem que me ensinou a ser historiador, esteve ele mesmo em campos de concentração na Segunda Guerra, desenraizou-se da sua própria terra para cair no Novo Mundo que algumas décadas depois lhe reservaria uma ditadura militar e uma prisão. Ele não teve como pensar a vida à base de metas e planejamento. Ao contrário disso, em um mundo sem backup e nuvens, mais de uma vez teve que picar textos prontos para evitar que caíssem nas mãos da repressão, várias vezes voltando à estaca zero da sua produção, como se fosse Sísifo.
Tenho pensado muito em tudo isso porque acredito que para nenhum outro grupo o Golpe de Estado que está acontecendo é pior do que para a geração que, como eu, está chegando hoje aos 40 anos. Não tenho dúvidas de que é algo terrível para aqueles que viveram a repressão da última ditatura e conheço relatos muito tristes de pessoas que começam a ter reminiscências desse tempo. No entanto, para aqueles que estão próximos dos 40 e não tiveram pais ou pessoas próximas diretamente atingidos pela repressão, encarar o avanço assustador do conservadorismo, aqui coroado com um golpe parlamentar muito semelhante a de outras partes da América Latina, é difícil de assimilar por falta de repertório.
Afinal, nós somos a exceção da história da humanidade: excetuando os anos finais da Ditadura começada em 1964, quando éramos muito novos para compreender o que estava acontecendo, a nossa vida foi toda percorrida em um regime democrático. Cambaleante, sim. Excludente, sem dúvida. Mas no qual as regras do sistema representativo foram, de modo geral, respeitadas, apesar de um Proconsult aqui ou da deposição de Jackson Lago do governo do Maranhão em pleno governo Lula. De toda forma, não aconteceu nada parecido como esta tentativa de inversão de um resultado eleitoral, quando o programa de governo derrotado está prestes a ser implementado por via de uma espécie de “indiretas já”. Ao contrário disso, os resultados eleitorais, ao menos no plano nacional, foram não só respeitados, como é inegável uma melhoria do país e avanços à esquerda em quase todas as áreas, mesmo que sempre insuficientes para o nosso gosto. Da mesma forma, nunca vivenciamos pessoalmente uma guerra, a não ser nas redes sociais. Não choramos a dizimação do país por uma peste ou desastre natural de enormes proporções.
Mais uma vez, somos a exceção da história da humanidade. Vivemos todos nós uma espécie de ilusão de que as nossas histórias pessoais poderiam ser planejadas, sem um sacolejar da história que talvez levasse as nossas expectativas pessoais para o segundo plano. Mas parece que agora as coisas mudaram e talvez tenhamos que cada vez mais pensar naqueles que admiramos e passaram por adversidades como as que estão nos obrigando a viver agora.
De relatos de amigos a resumos que li sobre a recente entrevista do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, para a imprensa alternativa em São Paulo, o que mais me chamou a atenção foi a incompreensão dele ao nosso sentimento de “fim da história”. Apoiado em tantas lutas, Mujica só lembrava a todos nós que nenhuma vitória ou derrota é definitiva. Por isso, venho insistindo aos meus companheiros de geração: vamos lutar até o fim, mas, se o golpe prevalecer, vamos ter que encarar as consequências que virão de frente, como fizeram os que vieram antes de nós. Essa será a nossa vida.
Um tempo de reavaliação
Passados treze anos de administração federal do Partido dos Trabalhadores, a experiência mais próxima de um projeto de esquerda que já tivemos, o governo está próximo de cair sob os clamores de um discurso político dos mais rasteiros. A miséria política brasileira não é um discurso só de ódio ao PT, mas à política em geral.
A ideia de que todos os políticos de hoje são iguais remete a um provérbio muito popular do Império do Brasil que dizia que não havia nada mais parecido com um Saquarema (conservador) do que um Luzia (liberal) no poder. Certamente, não se trata de uma doença dos brasileiros em não identificar as distinções entre os projetos políticos que os partidos representam. Este é apenas o sintoma de algo mais profundo.
A respeito da aparente indistinção entre Conservadores e Liberais no Império do Brasil, certamente uma das análises mais inteligentes é do historiador Ilmar Mattos, no clássico O Tempo Saquarema. Ilmar retoma o provérbio – de que não nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder – para mostrar que isso era concretamente falso, mas que a percepção que a população tinha desta indistinção era perfeitamente compreensível.
Desse modo, concretamente, os Liberais e Conservadores defendiam projetos políticos bem distintos. Entre outras coisas, os Liberais defendiam a proeminência do Parlamento, como a maior expressão do sistema representativo. Já os Conservadores – e sobretudo, a sua parcela Saquarema – não abriam mão de que o monarca fosse o topo da pirâmide de uma sociedade muito mais hierarquizada do que a almejada pelos Liberais. Ao contrário dos Luzias, os Conservadores aceitavam subordinar a liberdade da sociedade ao imperativo da ordem. Como lembra Mattos, uma das referências desses conservadores era Hobbes, o autor de O Leviatã.
Até este ponto, a análise não é novidadeira. São conhecidas as diferenças entre liberais e conservadores no Império. A inovação de Ilmar é demonstrar porque eles eram percebidos pela população como iguais. Para Mattos, desde o final da década de 1830, os Saquaremas – uma facção dos Conservadores instalados na região cafeeira perto da Corte – conseguiram moldar os instrumentos do Estado à feição dos seus ideias. Em outras palavras, tornaram hegemônico o projeto político Saquarema, de forma que suas ideias também fossem compartilhadas por todos os braços institucionais – de tribunais a professores. Nessa perspectiva, defende Mattos, os Liberais podiam estar à frente dos ministérios, serem maioria no Parlamento, mas jamais conseguiam implementar o projeto que defendiam. Poderiam ser feitas algumas mudanças, mas a alma do Estado, o seu sentido continuava a ser Saquarema. O exemplo magistral dessa subordinação política e intelectual dos Liberais aos Saquaremas está no chamado golpe da maioridade: sem forças para recuperar a direção do Estado, os Liberais foram justamente apelar a um menino para que assumisse a Coroa, sob o argumento que só o monarca poderia trazer a paz ao Império após a sequência de conflitos da Regência. Um beija-mão que cobrou seu preço por quase 50 anos.
Durante anos, muito antes da situação atual, penso nas similitudes entre o que ocorreu com os Liberais no século 19 e os limites da administração petista nesta última década. Guardadas as devidas proporções, penso que o enquadramento é muito similar: o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder central, fez reformas e políticas importantes, mas jamais chegou perto de mudar a lógica da dinâmica política e econômica que foi moldada no início da Nova República até aqui.
Isso não quer dizer que não exista diferenças entre o PT (e a esquerda) e o espectro mais à direita da política brasileira. Bastou uma semana do governo Temer para deixar isso bem claro: um ministério sem mulheres e negros, anúncios de renúncia do SUS como um direito universal, cobranças de mensalidades em universidades públicas, fechamento de embaixadas na África, entre outras barbaridades. No entanto, é preciso reconhecer que, no campo econômico, todas as políticas de inclusão social estiveram subordinadas aos limites impostos por uma economia de matriz liberal. Isso, em tempo algum, foi de fato enfrentado. Nem os juros astronômicos da Selic (com exceção dos dois primeiros anos do governo Dilma), tampouco a legitimidade da dívida pública, cujo o pagamento é a maior transferência de renda do Brasil. Aceitar esse jogo foi reafirmar a subordinação da sociedade à garantia dos direitos de propriedade privada e do rentismo acima de qualquer coisa. Isso foi decisivo para uma reforma agrária quase inexistente, aceitar o papel do Brasil como um fornecedor de comodites e não estabelecer um plano claro de desenvolvimento nacional. Não por acaso, alguns críticos ironizavam que o plano econômico do PT era uma continuidade do que fora feito no governo FHC.
A Educação, um pecado capital
No plano social, a educação teve avanços, mas não se impediu que a lógica de mercado continuasse a limitar a grande virada necessária. Não se trata apenas de incluir mais e mais pessoas na escola, do ensino fundamental ao superior, ainda que isso também seja importante. Contudo, a escola não pode ser o lugar onde se reafirmam as diferenças sociais pretéritas. Nesse sentido, não se inverteu o quadro em que as escolas públicas de ensino fundamental e médio são progressivamente sucateadas e escolas privadas aparecem como a solução dos que podem pagar. Neste aspecto, apesar dos inegáveis avanços, o Partido dos Trabalhadores jamais teve um plano articulado para a educação a ponto de assumir todos os riscos que implicariam a revolução de transformar a escola pública, de fato, em um lugar em que toda a república se encontra, sem privilégios. Nesse aspecto, diga-se de passagem, é triste que um dos aspectos mais frágeis da administração municipal de Fernando Haddad seja justamente a educação, claramente uma área que não tem um projeto articulado, audacioso, ou inovador como o reservado a outras pastas, como a mobilidade por exemplo. É uma pena, pois Haddad foi um bom Ministro da Educação, ainda que dentro dos limites descritos acima, e é, certamente, um dos quadros políticos mais promissores do Brasil. Mas aceitou, diga-se de passagem, entregar justamente a educação ao PMDB.
Não dar à educação o lugar central de uma revolução social no Brasil pode ter sido o maior de todos os erros da administração petista. Ao permitir que a escola pública brasileira de ensino básico continuasse a ser o pilar de um “apartheid”, que cada vez mais separa na infância pobres e negros de brancos e filhos de classe média, o PT pariu a geração de paneleiros que vemos por aí, todos muito ciosos da sua meritocracia aprendida dentro dos muros de condomínios e de escolas repletas de câmeras e seguranças. Repetimos, assim, o mesmo papel excludente que a educação tinha no Brasil no século XIX: antes de tudo, era o processo de formação da elite dirigente. Chegar a deputado ou ministro tinha como ponto de partida, entrar nas escolas de Direito de São Paulo ou Recife, transformadas em mecanismos de reprodução e reafirmação eterna dos mesmos grupos dirigentes, inclusive amalgamados e uniformizados pela educação escolar.
Em razão disso, não é surpreendente que o governo de Dilma Roussef tenha sido alvo de oposição e, algumas vezes de perseguição sistemática de alguns órgãos ou grupos da elite do funcionalismo público federal. O PT, assim como os Luzias no século XIX, foi governo, mas jamais teve o aparelho de Estado na mão, nunca conseguiu fazer com que a máquina comprasse um discurso mais inclusivo. Mantidas as situações atuais, teremos juízes com boa formação, mas insensíveis às razões sociais. Médicos mais preocupados com suas questões coorporativas do que com o fato de existir um contingente enorme de brasileiros sem acesso à saúde. Nessa direção, parece claro que a elite do funcionalismo público federal foi absolutamente insensível à inegável melhoria nas condições de trabalho nos últimos anos – inclusive salarial – porque, entre outras coisas, negava-se a compactuar com um projeto mais inclusivo. O lugar de classe falou mais alto e, numa sociedade claramente cindida, não é de estranhar que boa parte desses estratos se identifique com o projeto defendido pelo PSDB, mesmo que ele seja privatista e favorável a um Estado mínimo. Provavelmente, trata-se de um caso da chamada “síndrome de Estocolmo”.
O PT não enfrentou a questão da Educação nesta dimensão, entre outras coisas, porque seria a mais radical revolução brasileira. E custaria muito, muito dinheiro. Fazer uma educação de fato inclusiva, significa ter profissionais altamente qualificados, crianças em escola de tempo integral e reconhecer que os alunos com origens diferentes devem ter atenção diferente. Uma escola que opta por um sistema sem reprovação, que deve ser o horizonte a buscarmos, precisa de sistemas de reforço e acompanhamento para alunos que têm mais dificuldades ou recebem menos estímulos em casa. Nada mais injusto do que supor que o ritmo de alfabetização de uma criança cercada por livros e por pais leitores seria o mesmo de outra sem estes estímulos. Mas a escola pode e deve equalizar essas diferenças pretéritas se permitir caminhos diferentes de aprendizado, inclusive reforçando aqueles que têm mais dificuldades. Caso contrário, as desigualdades só tendem a aumentar.
Enquanto isso não acontecer, nossas universidades continuarão sendo réplicas dos cursos superiores do Brasil no século 19: o encontro de uma mesma classe social, muito bem treinada, capaz de sair-se bem em qualquer teste seletivo, mas absolutamente incapaz de entender o país. As cotas, que devem ser acompanhadas de sistemas de apoio aos ingressantes (algo que os governos não fazem e, com isso, ajudam a aumentar a evasão), hoje tornam-se urgentes e necessárias. De modo geral, discute-se a importância e o impacto do curso superior para a vida desses meninos e meninas. Isso é claro, mas penso que hoje as nossas Universidades precisam ainda mais deles do que esses meninos e meninas de nós.
É lógico, no entanto, que reconheço os avanços dos últimos anos, ainda que muitas vezes eles estejam mais amparados em outras políticas sociais do que propriamente em modificar a escola. Lembro, por exemplo, da primeira viagem que fiz ao interior do Amazonas, há dez anos. Lá os moradores estavam no auge uma polêmica: desde sempre as crianças, ao atingirem um corpo mínimo para o trabalho, antes dos dez anos, partiam para ajudar os pais na roça, deixando a escola. O Bolsa Família impôs a pais e mães um dilema: o pequeno valor da bolsa era equivalente ao que se conseguiria com o trabalho infantil, mas aceitá-la e não obrigar as crianças trabalharem não os fariam adultos vagabundos? Esse raciocínio que nos parece absurdo era um dilema sincero daqueles homens. Só pouco a pouco aquelas crianças foram libertadas do trabalho. Talvez por coisas desse tipo não vejamos mais na TV ou em capas de revista as famosas fotos de crianças trabalhando em carvoarias, algo extremamente comum na década de 1990. Mas, claro, essa é uma mudança difícil de sensibilizar o grosso da população das nossas áreas urbanas.
O significado do PMDB
No plano político, por sua vez, o Partido dos Trabalhadores se submeteu a outra cláusula pétrea da Nova República: esteja quem estiver na cadeira de presidente, quem manda é o PMDB. Às vezes, coincidentemente, o presidente até é do PMDB.
O PMDB é mais do que um partido. É um projeto político que não necessariamente é tocado por ele, mas por agremiações que fazem a sua vez, de tempos em tempos. Na era FHC, por exemplo, o então PFL foi o PMDB da vez. Kassab e o seu PSD tentou, no início do segundo governo Dilma, ser o PMDB a partir de uma série de deserções que então se contava que eram estimuladas pelo Palácio do Planalto.
Mas, reconheça-se, ninguém consegue ser melhor o PMDB que o próprio. Chamado, assim como seus congêneres, de partido-ônibus, federação de caciques etc, o PMDB é, na verdade, a expressão mais genuína dos poderes locais do Brasil. É nele que resistem personagens que retiram de seus Estados ou municípios a sua força, muitas vezes sem alcançar projeção nacional.
Ao aceitar o chamado presidencialismo de coalisão, o Partido dos Trabalhadores também teve que se submeter a esse casamento forçado. E, diga-se de passagem, acabou ressuscitando personagens que pareciam proscritos. Talvez o maior exemplo de todos seja José Sarney que em algum momento foi o fiador da estabilidade de boa parte do Governo Lula no Congresso. Críticos ao PT sempre recordaram-se dessa imagem constrangedora, mas esqueceram-se que todo o presidente nos últimos trinta anos teve um oligarca pra chamar de seu, quando não era ele mesmo o residente do Palácio do Planalto. Fernando Henrique jamais poderá se desvencilhar da atuação de Antonio Carlos Magalhães, por exemplo.
Chega-se aqui a uma síntese bem brasileira: os poderes locais se reinventam perpetuamente e encontram maneiras de chegar ao poder central através do parlamento. Em Brasília, dentro do jogo político atual, é impossível governar sem alianças com esses poderes locais, quase unanimemente conservadores em relação aos costumes, frequentemente dependentes de benesses do Estado, mas portadores de um discurso liberalizante. Dessa forma, o PMDB e seus congêneres são a expressão mais genuína do conservadorismo brasileiro, mas ao mesmo tempo conseguem se conectar com o que há de mais moderno no mundo econômico e do rentismo, no qual aceitam ser seus porta vozes em troca de uma posição de sócio minoritário.
Enquadrar a situação política nessa perspectiva retoma uma polêmica de pelo menos dois séculos: para alcançar a construção de uma nação moderna, o caminho é a descentralização dos poderes localmente? É em torno dessa disputa que se dá boa parte das encrencas na Argentina do século 19. Esse é o debate fundante dos Estados Unidos e elemento importante da sua própria identidade. No Brasil, costuma-se entender que o processo triunfante no século 19 foi o da centralização dos poderes sob a mão do Imperador e patrocínio dos Conservadores. Mas há um inegável quinhão de prerrogativas e poderes que permaneceram sob órbita dos elementos dominantes nas províncias, ainda que pareça ser inadequado ver o Brasil como uma federação no século 19, tal como propôs recentemente Miriam Dolhnikoff em “O Pacto Imperial”.
Mas a questão que importa aqui é lembrar que, no Brasil do século 19, os auto intitulados liberais foram muito bem sucedidos no seu projeto de cravar na nossa ideia histórica que o projeto mais progressista do Império, o que garantia maiores liberdades, era o que propunha a maior descentralização política. Foram bem sucedidos, inclusive em tornar quase inquestionável a associação entre ser liberal e ser favorável à descentralização política e administrativa. Talvez Sérgio Buarque seja um dos pouquíssimos autores que questionaram essa associação, lembrando que os revolucionários franceses investiram em um poder centralizado como a única forma de varrer os domínios locais que pudessem impedir que as instituições republicanas fossem uniformes em toda a nação.
No Brasil, como dito antes, a centralização política dos Saquaremas garantiu a autoridade máxima à Coroa no Rio de Janeiro, mas não impediu que as províncias tivessem os seus “reizinhos”, sempre ciosos em garantir as suas prerrogativas de mando e poder. Ao falar sobre a situação dos indígenas no Império do Brasil, Manuela Carneiro ilumina esta questão: diz que toda a vez que os indígenas tiveram suas condições de vida reguladas por leis provinciais, sua sorte foi muito pior do que quando era regida por leis pensadas na Corte. Afinal, era no interior das províncias que os embates mais sangrentos entre proprietários e indígenas se dava, sendo os primeiros também os formuladores das leis locais.
Há uma possibilidade dessa dispersão de poderes entre as localidades produzir, de fato, mais liberdade, mais democracia e controle dos cidadãos? Em geral, usa-se o exemplo estadunidense para afirmar que sim. Afinal, é de fato impressionante a grande autonomia dos estados, contrastando com uma forte unidade política e um nível de desenvolvimento mínimo comum a todos os “sócios” da federação. No entanto, é preciso lembrar que, se dependesse dos poderes locais, a escravidão não teria ocorrido em vários dos estados do sul dos EUA, ao menos no momento em que ocorreu. A grande tragédia americana, a Guerra de Secessão, é o exemplo mais radical de uma intervenção do poder central sobre as localidades.
No Brasil, nesses últimos anos, o poder central não fez frente aos potentados locais, com raras exceções. E, do lado contrário, muitas das antigas famílias dominantes nos Estados se renovaram ao lado do poder central. Temos aí a grande incógnita brasileira: será possível, por exemplo, chegar a uma educação de qualidade, entregando a administração das redes a governadores e prefeitos que se negam a pagar o mísero piso nacional dos professores?

"Amanhã vai ser outro dia
Logo após a votação do impedimento de Dilma Roussef, muitos se perguntaram: é possível resistir? Como resistir? Vladmir Saflate poucos dias antes, na Folha de São Paulo, indicou uma direção: a desobediência civil. Vários outros escreveram nos dias seguintes sobre o direito histórico de resistir a governos considerados ilegítimos. Isso acontecerá nestes termos? Não sei. A desobediência civil parece um ato simples, mas não é por acaso que é rara na história e, via de regra, mortal para os regimes políticos. Na falta de um Gandhi ou de um Luther King, fica a pergunta do que traduzirá para os demais esse sentimento difuso de que está tudo fora dos seus lugares.
Além disso, não se trata apenas do mandato de Dilma Roussef. É preciso resistir a uma onda conservadora, dessas que se espalham pelo Brasil afora. Na contramão do mundo, não bastavam as antigas pautas como leis homofóbicas, contra o aborto e o uso de drogas que já são legais em boa parte dos países tão admiradas por nossas mentes colonizadas. Agora saltam aqui e ali, leis estaduais ou medidas judiciais que questionam a liberdade docente para definir suas pautas em sala de aula ou até mesmo o pedido de proibir-se reuniões “políticas” nas universidades. Com variações, isso é o que se chamou de “escola sem partido”, uma resposta à suposta doutrinação de esquerda em livros didáticos e em salas de aula. É curioso que os mesmos que defendem com unhas e dentes a liberdade de imprensa, não conseguiram perceber que essa vem da mesma fonte da liberdade de cátedra. A “escola sem partido” é na verdade a “escola sem política”, uma proposição tão fantasiosa quanto a isenção jornalística. Toda educação é política, o que não significa e nem pode significar a submissão dos professores à agenda de uma agremiação política eventualmente no poder. Contudo, para um criacionista, o evolucionismo, uma evidência científica, é uma ideia de esquerda corrompendo as mentes infantis.
Nenhuma vitória ou derrota é absoluta, mais uma vez lembro Pepe Mujica. Há quem veja agora apenas uma onda conservadora avassaladora e o silêncio. Mas há rebeldia por toda parte. Como entender o levante dos secundarista em todo o Brasil? Assembleias Legislativas sendo tomadas, meninos e meninas se deslocando de uma escola para outra, acumulando contatos e formando redes. Quem os entende? Ignoram os partidos, pregam uma horizontalidade que para os mais velhos parece utopia, quando não uma bobagem. Mas terem nascido do problema fundante do Brasil – a educação – torna seus movimentos dignos de acompanhamento. Além disso, uma presença feminina tão marcante na organização dos movimentos, demonstra que há algo de novo na praça. Elas não querem ser “belas, recatadas e do lar”, por mais que lhes ensinem isso.
Mas a resistência, acredito, também virá de tudo o que plantamos ao longo dos últimos anos, cada um a seu jeito. Trabalho em um campus universitário novo, com menos de dez anos. Logo ao chegar, menos de seis anos atrás, tive uma paixão à primeira vista: um projeto diferente, novo, que incluía alunos muito diferentes daqueles que tinham sido meus companheiros de curso anos atrás. Além disso, colegas que como eu estavam começando na carreira, cheios de sonhos e expectativas. Sofremos um bocado desde então. Como vários campi erguidos durante o REUNI, padecemos com a falta de um prédio definitivo e improvisações mil, a ponto de merecer o escárnio de manchetes e destaques em todo o tipo de imprensa conservadora. Brigamos muito com o governo, com a universidade e entre nós. Mas há um mês o prédio novo foi inaugurado. Há ainda muitos problemas, uma obra incompleta no mesmo terreno e toda a sorte de improvisações que são previsíveis (apesar de lamentáveis e irritantes) nesse contexto. De toda forma, é visível o impacto que o prédio traz para a comunidade, como se fosse testemunha de que nós estivemos ali. Como se fosse a garantia que, a despeito de golpes e contragolpes, agora ficou mais difícil desmontar esse projeto. Coincidentemente, com a inauguração do prédio do campus, estou assistindo a formatura da primeira turma que acompanhei desde o início. Com todas as suas incertezas e dificuldades, tenho certeza de que o Brasil é um país melhor com esses meninos e meninas historiadores. Essa é a resistência que eu mais acredito.

A esses meninos e meninas, eu dedico este texto!" 
André Roberto de A. Machado é historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP     

Poema

As palavras do Poeta

O poeta se vinga do futuro
no seu pacto de total abstração:
fecha a porta com cimento, pula o muro
e segue tranqüilo na contra-mão!

Na sua fresta de espiar vê o que quer,
sua trincheira improvisada é segura,
pois acima de tudo coloca a fé -
de todas que se conhece, a mais pura!

Não importa em que lugar agora esteja,
num quarto cinza alugado ou num palácio,
é o bem estar no aprender que ele corteja
e seu tempo corre leve, solto e fácil!

Suas palavras podem soar diferente,
mas nessa hora é preciso muita calma:
mesmo que sejam tolas ou inconsequentes,

adoçam o coração e engordam a alma!

Expedito Gonçalves Dias

(As Palavras do Poeta - Este poema faz parte do livro "Versos Inquietos - Na Aba da Lua" - de Expedito Gonçalves Dias/Editora Scortecci, 2015. Pode ser adquirido entrando em contato com o autor, via WApp:
+55 35 9 8847 1040)

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terça-feira, 26 de julho de 2016

Stop Coup in Brazil - Poema: Corpos


O complexo midiático-jurídico americano está fazendo mais uma baixa na América do Sul. As consequências virão, infelizmente!
E Dilma denuncia:
'Esses processos golpistas podem trazer consequências imprevisíveis. Lamentavelmente o preço a pagar será muito alto'
"Em todas as partes os salvadores da pátria o que mais fazem é comprometer a vida de quem deve ser salvo", diz Dilma
"Questionada se poderia imaginar que após o golpe parlamentar que destituiu o ex-presidente Fernando Lugo em 2012 ela seria a próxima vítima desse tipo de ação, Dilma foi taxativa: “jamais imaginei. Não acreditava que no Brasil a cláusula democrática estabelecida dentro do Mercosul e da Unasul seria violada”.
Para Dilma, “esses processos golpistas podem trazer consequências imprevisíveis” e pontua que “quem está apostando nesses golpes na América Latina corre o risco de causar uma desestabilização profunda” e não descarta o risco de uma explosão social na região: “esses processos golpistas podem trazer consequências imprevisíveis. E parece que nem os próprios golpistas sabem o que poderá ser desencadeado no futuro. Lamentavelmente o preço a pagar será muito alto”."
Visite o link:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/44779/atos+de+governo+golpista+provocarao+explosoes+sociais+na+america+latina+diz+dilma+a+jornal+mexicano.shtml
                                        __________________________________
E um poema para amenizar:  
Corpos são belos, repletos de pelos ou retos e lisos...
CORPOS

Corpos sãos
são corpos que ardem,
que se entregam,
se esfregam,
se esfolam,
se falam,
se calam, às vezes...

Corpos são belos,
repletos de pelos,
ou retos e lisos.

Corpos, às vezes são meios,
às vezes são fim.
Há corpos que deslizam,
se afastam sem aviso.

Os que se rebaixam,
que se acham no fundo sem opção,
frutos do meio,
escravos,
infecundos,
opacos ou vazios,
simples aberração!

Há os concisos, 
bravos senhores de si,
que se acham
'encorpados', 
tão cheios,
descolados
e se encaixam,
tão free!..
que se esborracham!

Ah, há aqueles corpos sem pudor,
quentes, ardentes, no cio...
E aqueles gelados etéreos,
indiferentes e sem calor.
Há os esqueléticos 
e os sarados.
Há os abertos,
escancarados,
e os corpos herméticos.

Também tem uns empinadinhos,
curvilíneos, atraentes;
e outros em desalinho.

Há corpos que brilham,
que ofuscam os demais,
os que se buscam,
que se aliam,
que se casam.
Os que se traem,
depois se reconciliam;
os enganados,
os que sabiam,
os de guerra e os de paz...

Há os que, como ímã, se atraem,
ou se repelem,
tão carentes...

Há corpos que se intrometem:
os que engrossam,
os que afinam;
os que molestam,
os que querem,
os que detestam.

E os que se submetem
aos que dominam.

Há ainda corpos que se somam,
que subtraem.
Que se avaliam.
Corpos que se espalham,
extrapolam,
extravasam,
se retaliam, se retalham
se metralham!


Corpos sãos se remetem!
Se desejam,
se beijam,
se completam...

Os outros, não são!

Ilustração retirada do google (do site vilamulher)
Este poema faz parte do meu livro "Versos Inquietos - Na Aba da Lua" - 2015 - Editora Scortecci e pode ser adquirido entrando em contato comigo via WhatsApp:  +55 35 988471040 - R$ 47,00 - com frete para todo o Brasil)
Versos Inquietos-Na Aba da Lua

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segunda-feira, 28 de março de 2016

Lula é BRICS - BRICS é LULA


Primeira cúpula em Ecaterimburgo, na Rússia: Lula (Brasil), Medviedev (Rússia), Hu Jin Tao (China) e Manmohan Singh (Índia), no encontro realizado em junho de 2009
#LULA é #BRICS.
O BRICS por trás de tudo...
Enganam-se os golpistas: 2016 não é 1973. Hoje já se sabe quem, no mundo, é doido por golpes para mudar regimes. Cuidado, Moro, Gilmar, PIG, Globo!
O que o BRICS fará se prenderem o Lula ou se tentarem de verdade consolidar um golpe no Brasil?
O que farão a Rússia, a India, China e África do Sul?

O Excepcionalistão quer derrubar o BRICS! Quem tem lido as crõnicas econômicas da Folha-UOL, da Exame, etc, têm visto o manchetômetro diário contra o BRICS.
A idéia é a GLOBO esconder o BRICS e os demais o atacarem, para diminuir a sua importância. Acontece porém que o BRICS é o maior grupo econômico já surgido em todos os tempos. Isto está tirando o sono de Wall Street há muito tempo.
Pepe Escobar: A luta é de vida ou morte; porque Lula é Brics.
"Brics" é a sigla mais amaldiçoada no eixo Avenida Beltway [onde ficam várias instituições do governo dos EUA em Washington]-Wall Street, e por razão de peso: a consolidação do Brics é o único projeto orgânico, de alcance global, com potencial para afrouxar a garra que o Excepcionalistão mantém apertada no pescoço da chamada "comunidade internacional".

Pepe Escobar*, no Russia Today
Primeira cúpula em Ecaterimburgo, na Rússia: Lula (Brasil), Medviedev (Rússia), Hu Jin Tao (China) e Manmohan Singh (Índia), no encontro realizado em junho de 2009Primeira cúpula em Ecaterimburgo, na Rússia: Lula (Brasil), Medviedev (Rússia), Hu Jin Tao (China) e Manmohan Singh (Índia), no encontro realizado em junho de 2009 Assim sendo, não é surpresa que as três potências chaves do Brics estejam sendo atacadas simultaneamente, em várias frentes, já faz algum tempo. Contra a Rússia, a questão é a Ucrânia e a Síria, a guerra do preço do petróleo, o ataque furioso contra o rublo e a demonização ininterrupta da tal "agressão russa". Contra a China, a coisa é uma dita "agressão chinesa" no Mar do Sul da China e o (fracassado) ataque às Bolsas de Xangai/Shenzhen.
O Brasil é o elo mais fraco dessas três potências emergências crucialmente importantes. Já no final de 2014 era visível que os suspeitos de sempre fariam qualquer coisa para desestabilizar a sétima maior economia do mundo, visando a uma boa velha 'mudança de regime'. Para tanto criaram um coquetel político-conceitual tóxico ("ingovernabilidade"), a ser usado para jogar de cara na lama toda a economia brasileira.
Há incontáveis razões para o golpe, dentre elas: a consolidação do Banco de Desenvolvimento do Brics; o impulso concertado entre os países Brics para negociarem nas respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano e visando a construir outra moeda global de reserva que tome o lugar do dólar; a construção de um cabo submarino gigante de telecomunicações por fibra ótica que conecta Brasil e Europa, além do cabo Brics, que une a América do Sul ao Leste da Ásia – ambos fora de qualquer controle pelos EUA.
E acima de tudo, como sempre, o desejo pervertido obcecado do Excepcionalistão: privatizar a imensa riqueza natural do Brasil. Mais uma vez, é o petróleo.
Peguem esse Lula, ou... (...)"
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Peguem esse Lula, ou...

WikiLeaks já expôs há muito tempo, em 2009, o quanto o Big Oil estava ativo no Brasil, tentando modificar, servindo-se de todos os meios de extorsão, uma lei proposta pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido também como Lula, que estabelece que a estatal Petrobrás (lucrativa) será a única operadora de todas as bacias de petróleo no mar, da mais importante descoberta de petróleo desse jovem século 21: as reservas de petróleo do pré-sal.
Lula não só deixou à distância o Big Oil – especialmente ExxonMobil e Chevron –, mas também abriu a exploração do petróleo no Brasil à Sinopec chinesa – parte da parceria estratégica Brasil-China (Brics dentro de Brics).
O inferno não conhece fúria maior que a do Excepcionalistão descartado. Como a Máfia, o Excepcionalistão nunca esquece; mais dia menos dia Lula teria de pagar, como Putin tem de pagar por ter-se livrado dos oligarcas cleptocratas amigos dos EUA.
A bola começou a rolar quando Edward Snowden revelou que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (ing. NSA) andava espionando a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e vários altos funcionários da Petrobrás. Continuou com o fato de que a Polícia Federal do Brasil coopera, recebe treinamento e/ou são controladas de perto por ambos, o FBI e a CIA (sobretudo na esfera do antiterrorismo). E prosseguiu via os dois anos de investigações da Operação Lava Jato, que revelou vasta rede de corrupção que envolve atores dentro da Petrobrás, as maiores empresas construtoras brasileiras e políticos do partido governante Partido dos Trabalhadores.
A rede de corrupção parece ser real – mas com "provas" quase sempre exclusivamente orais, sem nenhum tipo de comprovação documental, e obtidas de trapaceiros conhecidos e/ou neomentirosos seriais que acusam qualquer um de qualquer coisa em troca de redução na própria pena.
Mas para os Procuradores encarregados da Operação Lava Jato, o verdadeiro negócio sempre foi, desde o início, como envolver Lula em fosse o que fosse.

Entra o neo-Elliott Ness tropical

Chega-se assim à encenação espetacularizada, à moda Hollywood, na 6ª-feira passada em São Paulo, que disparou ondas de choque por todo o planeta. Lula "detido", interrogado, humilhado em público (comentei esses eventos em"Terremoto no Brasil").
O Plano A na blitz à moda Hollywood contra Lula era ambicioso movimento para subir as apostas; não só se pavimentaria o caminho para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (que seria declarada "culpada por associação"), como, também, já se neutralizaria Lula, impedindo-o de candidatar-se à presidência em 2018. E não havia Plano B.
Como não seria difícil prever que aconteceria – e acontece muito nas 'montagens' do FBI – toda a 'operação' saiu pela culatra.

Lula, em discurso-aula, master class em matéria de discurso político, reproduzido ao vivo por todo o país pela internet, não só se consagrou como mártir de uma conspiração ignóbil, mas, mais que isso, energizou suas tropas de massa. Até respeitáveis vozes conservadoras condenaram o show à moda Hollywood, de um ministro da Suprema Corte a um ex-ministro da Justiça, que serviu a governo anterior aos do Partido dos Trabalhadores, além do conhecido professor e economista Bresser Pereira (um dos fundadores do PSDB, que nasceu como partido da social-democracia do Brasil, mas virou a casaca e é hoje defensor das políticas neoliberais do Excepcionalistão e lidera a oposição de direita).
Bresser disse claramente que a Suprema Corte deveria intervir na Operação Lava Jato para impedir novos abusos. Os advogados de Lula, por sua vez, requereram à Suprema Corte que detalhasse a jurisprudência que embasaria as acusações assacadas contra Lula. Mais que isso, um advogado que teve papel de destaque na blitz hollywoodiana disse que Lula respondeu a tudo que lhe foi perguntado durante o interrogatório de quase quatro horas, sem piscar – eram as mesmas perguntas que já lhe haviam sido feitas antes.
O professor e advogado Celso Bandeira de Mello, por sua vez, foi diretamente ao ponto: as classes médias altas no Brasil – nas quais se reúnem quantidades estupefacientes de arrogância, ignorância e preconceito, e cujo maior sonho de toda uma vida é alcançar um apartamento em Miami – estão apavoradas, mortas de medo de que Lula volte a concorrer à presidência – e vença – em 2018.

E isso nos leva afinal ao juiz mandante e carrasco executor de toda a cena: Sergio Moro, protagonista de "Operação Lava Jato".

Ninguém em sã consciência dirá que Moro teve carreira acadêmica da qual alguém se orgulharia. Não é de modo nenhum teoricista peso pesado. Formou-se advogado em 1995 numa universidade medíocre de um dos estados do sul do Brasil e fez algumas viagens aos EUA, uma das quais paga pelo Departamento de Estado, para aprender sobre lavagem de dinheiro.
Como já comentei, a chef-d’oeuvre da produção intelectual de Moro é artigo antigo, de 2004, publicado numa revista obscura, nos idos de 2004 ("Considerações sobre Mãos Limpas", revista CEJ, n. 26, julho-Set. 2004), no qual claramente prega a "subversão autoritária da ordem judicial para alcançar alvos específicos" e o uso dos veículos de mídia para envenenar a atmosfera política.
Quer dizer, o juiz Moro literalmente transpôs a famosa operação da Justiça italiana de 1990 Mani Pulite ("Mãos Limpas") da Itália para o seu próprio gabinete – e pôs-se a instrumentalizar os veículos da grande mídia brasileira e o próprio judiciário, para alcançar uma espécie de "deslegitimação total" do sistema político. Mas não quer deslegitimar todo o sistema político: só quer deslegitimar o Partido dos Trabalhadores, como se as elites que povoam todo o espectro da direita no Brasil fossem querubins.
Assim sendo, não surpreende que Moro tenha contado com a companhia solidária, enquanto se desenrolava a Operação Lava Jato, do oligopólio midiático da família Marinho – o império midiático O Globo –, verdadeiro ninho de reacionários, nenhum deles particularmente inteligente, que mantiveram íntimas relações com a ditadura militar que, no Brasil, durou mais de 20 anos.

Não por acaso, o grupo Globo foi informado sobre a "prisão" hollywoodiana que Moro aplicaria ao presidente Lula antes de a operação começar, e pode providenciar cobertura que efetivamente tudo encobriu, ao estilo CNN.
Moro é visto por muitos no Brasil como um sub Elliot Ness nativo. Advogados que têm acompanhado o trabalho dele dizem que o homem cultiva a imagem de que o Partido dos Trabalhadores seria uma gangue que viveria a sanguessugar o aparelho do Estado, com vistas a entregar tudo, em cacos, aos 'sindicatos'.
Segundo um desses advogados, que falou com a mídia independente no Brasil, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Moro é cercado por um punhado de Procuradores fanáticos, com pouco ou nenhum saber jurídico, que fazem pose de Antonio di Pietro (mas sem a solidez do Procurador milanês que trabalhou na Operação Mãos Limpas).
Ainda pior, Moro não dá sinais de preocupar-se com a evidência de que depois que o sistema político italiano implodiu, ali só prosperaram os Berlusconi. No Brasil, certamente se veria a ascensão ao poder de algum palhaço/idiota de bairro, elevado ao trono pela Rede Globo – cujas práticas oligopolistas já são bastante berlusconianas.

Pinochets digitais

Pode-se dizer que a blitz à moda Hollywood contra Lula guarda semelhanças diretas com a primeira tentativa de golpe de Estado no Chile, em 1973, que testou as águas em termos de resposta popular, antes do golpe real. No remix brasileiro, jornalistas globais fazem as vezes de Pinochets digitais. Mas as ruas em São Paulo já mostram graffiti que dizem "Não vai ter golpe" e "Golpe militar – nunca mais."
Sim, porque tudo, nesse episódio tem a ver com um golpe branco – sob a forma de impeachment da presidenta Rousseff e com Lula atrás das grades. Mas velhos vícios (militares) são duros de matar: vários jornalistas próximos da Rede Globo e ativos agora na Internet já 'conclamaram' os militares a tomar as ruas e "neutralizar" as milícias populares. E isso é só o começo. A direita brasileira está organizando manifestações para o próximo domingo, exigindo – e o que mais exigiriam? – o impeachment da presidenta.
A Operação Lava Jato teve o mérito de investigar a corrupção, a colusão e o tráfico de influência no Brasil, país no qual tradicionalmente a corrupção corre solta. Mas todos, todos os políticos e todos os partidos políticos teriam de ser investigados – inclusive e sobretudo – porque em todos os casos esses são corruptos conhecidos há muito tempo! – os representantes das elites comprador brasileiras. A Operação Lava Jato não opera igualmente contra todos. Porque o projeto político aliado aos Procuradores do juiz Moro absolutamente não está interessado em fazer "justiça"; a única coisa que interessa a eles é perpetuar uma crise política viciosa, como meio para fazer fracassar a 7ª maior economia do mundo, para, com isso, alcançarem seu Santo Graal: ou aquela velha suja 'mudança de regime', ou algum golpe branco.
Mas 2016 não é 1973. Hoje já se sabe quem, no mundo, é doido por golpes para mudar regimes.


Pepe Escobar*, no Russia Today

*Jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputnik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Rede Voltaire e outros; é correspondente/articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu " - extraído de http://www.vermelho.org.br/noticia/277460-1


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